• “A esperança é um aspeto crucial da saúde mental”
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    20/12/2020

    Entrevista Expresso 18-12-2020
    Miguel Xavier | Coordenador do Plano Nacional de Saúde Mental

    As perturbações de ansiedade e a depressão aumentaram com a pandemia, mas o coordenador do Plano Nacional de Saúde Mental assegura que os serviços de psiquiatria estão a conseguir dar resposta. Ainda assim, Miguel Xavier diz que o apoio psicológico nos centros de saúde continua a falhar e lamenta que as equipas comunitárias tardem a arrancar. O psiquiatra confia que o aparecimento da vacina é “uma luz ao fundo do túnel que fará diminuir ou mesmo desaparecer” os problemas de saúde mental provocados pela pandemia.

    Estudos recentes indicam que houve um aumento da ansiedade e da depressão durante a pandemia. Os serviços de saúde mental conseguiram dar resposta?
    O consumo de psicofármacos aumentou neste período…

    O consumo de antidepressivos sim, mas nos ansiolíticos há uma estabilização. Tendo em conta que há mais ansiedade e depressão, é normal que o consumo de antidepressivos tenha aumentado. E é preciso acabar com a ideia de que esses fármacos só são usados para tratar a depressão. As perturbações de ansiedade estão a começar a ser tratadas, e bem, com antidepressivos, que são também armas de primeira linha, por exemplo, para a dor crónica. Quanto à pandemia, o que há neste momento é uma situação de grande incerteza, mas os centros de saúde e os serviços de psiquiatria estão a dar resposta às necessidades.

    Há doentes mentais graves que não estão a conseguir aceder aos lares e IPSS. Ainda assim, acha que está tudo a funcionar?
    Houve algumas atividades nos hospitais de dia, sobretudo coletivas, que foram, de facto, afetadas devido à pandemia e ao risco de contágio.

    Na prática, há uma exclusão e um possível agravamento da condição destas pessoas.
    Precisamente para evitar esse tipo de situações foram dadas instruções claras, por parte da Direção-Geral da Saúde, para haver um acompanhamento muito próximo das pessoas com doença mental grave. Acho que isso foi seguido.

    O impacto da pandemia na saúde mental será duradouro?
    A maior parte dos problemas que surgem agora são circunstanciais e limitados no tempo. Tudo dependerá da duração e do impacto económico desta crise. Se for drástico, o sofrimento psicológico será maior, e aí os serviços de psiquiatria podem dar uma ajuda, mas tudo dependerá dos apoios sociais que as pessoas receberem. Todas as medidas que impeçam primeiro a precarização e depois a pobreza e a dívida são protetoras da saúde mental. Seja como for, começa a aparecer agora uma luz ao fundo do túnel, com as vacinas, e acredito que isso fará diminuir ou mesmo desaparecer os sintomas de ansiedade e depressão. A esperança é um aspeto crucial da saúde mental.

    Estudos mostram que os jovens adultos são os mais afetados. Que resposta lhes será dada?
    O mais importante é os jovens terem capacidade de cuidar de si próprios e saber que, nestas circunstâncias, é normal sentirem determinado tipo de coisas, uma vez que as suas relações foram cortadas. Temos feito várias campanhas e dotado os serviços e comunidades de meios para prevenir o suicídio, ao mesmo tempo que estamos a apostar em programas de prevenção e promoção da saúde mental. Mas há um longo caminho a fazer.

    Todas as medidas que impeçam a precarização e a dívida são protetoras da saúde mental

    Os recursos humanos nesta área são suficientes?
    Essa parte é sempre problemática. Os recursos humanos existem, têm é de ser contratados, e isso é o mais difícil, por causa dos constrangimentos financeiros. Todos os anos entram [no SNS] 40 a 50 psiquia­tras de adultos e oito a dez pedopsiquiatras, o que significa que nos últimos dez anos entraram 200 a 300. Mas o número de psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais nos serviços de psiquiatria manteve-se exatamente igual. Isto é insustentável. Ou se investe em profissionais não médicos ou não haverá uma melhoria significativa na prestação de cuidados em saúde mental. Daí a nossa aposta nas equipas comunitárias.

    No início do ano foi aprovada a criação de duas equipas dessas, uma de adultos e outra de crianças e jovens, em cada região. Não é pouco?
    Concordo que não é sufi­ciente. Alguns serviços já têm equipas comunitárias há muitos anos, mas a maioria não. O objetivo é que este modelo se vá replicando até ter todo o território abrangido. A melhor forma de fazer psiquiatria é perto das pessoas.

    Era suposto as equipas comunitárias estarem a funcionar até 31 de outubro. Já estão?
    Não. Ainda não foram contratadas todas as pessoas. Devo dizer, com toda a transparência, que a contratação das equipas para as crianças e adolescentes ainda não foi sequer autorizada pelas Finanças, como estava previsto. Preocupa-me muito que uma medida que foi inscrita no Orçamento do Estado [para 2020] possa não ser cumprida.

    A criação dos Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental foi outra aposta do Governo, mas as respostas também continuam a escassear. Porquê?
    Concordo que as respostas são insuficientes. A implementação da rede é fraca e a referenciação dos utentes por parte dos serviços de psiquiatria é morosa. Ainda não há uma cultura de articulação entre esses serviços e os cuidados continuados. Mas há outra questão: os requisitos exigidos às instituições [IPSS, Misericórdias e ordens religiosas] que asseguram estes cuidados no que diz respeito às suas instalações não são os mais adequados e, na prática, paralisam-nas.

    O Orçamento do Estado para 2021 prevê uma verba de €19 milhões para a implementação do Plano Nacional de Saúde Mental. Será suficiente?
    É um bom começo, mas está muito longe do que é preciso. Essa verba é parte de um bolo de €85 milhões que foram pedidos a Bruxelas para um pe­ríodo de três anos. Não tem que ver, porém, com o dinheiro que deveria ser canalizado do orçamento do SNS para a saúde mental e que tem de aumentar. Quando olhamos para trás, vemos que não existiu qualquer investimento na saúde mental e que o dinheiro gasto serviu apenas para regular o funcionamento dos serviços de psiquiatria.

    Acha que é desta que a si­tuação vai mudar?
    Estou convencido de que nos próximos três anos a maio­ria das medidas contidas no Plano Nacional de Saúde Mental serão implementadas.

    Fonte: Jornal Expresso | expresso.pt

    https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2512/html/primeiro-caderno/sociedade/a-esperanca-e-um-aspeto-crucial-da-saude-mental